sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Outono: Tempo de semear!



Hoje é oficialmente o último dia de Verão e mais logo, pelas 21h02minutos, de acordo com o Observatório Astronómico de Lisboa, ocorre o equinócio de Outono, isto é  o " instante em que o ponto central do sol passa no equador" e em que, pelo menos em termos de percepção, o dia iguala a noite em duração. 

Na realidade e aspectos astronómicos à parte, a verdade é que poucos de nós ainda conseguem sentir que estamos no Verão. São dias perfeitos e de temperatura agradável, mas de luz coada e humidade no ar,  com tonalidades de cobre,  que deixam antever a diminuição dos dias que se aproxima.

Porém, longe de ser melancólica, o Outono é uma estação vibrante de oportunidades! Para nós, a melhor época para semear a maior parte das sementes das espécies autóctones , as quais encontram agora as condições perfeitas de luz e humidade para que a vida que nelas existe desperte e enraíze antes da chegada do Inverno, em meados de Dezembro.

Em Portugal e em muitos outros países do hemisfério norte convencionou-se que as mudanças de estação ocorrem nos equinócios e nos solstícios. Mas convém ter presente que é apenas uma convenção, que não existe qualquer entidade galáctica que ordene e legisle o tema! Para nós, por exemplo, a prática irlandesa faria muito mais sentido. Numa manifestação da sua herança céltica e do seu calendário com apenas duas estações, o início das estações tem ligeiros desvios, começando o Outono a 1 de Setembro (O Inverno a 1 de Dezembro, a Primavera a 1 de Março e o Verão a 1 de Julho). 

Todavia, apesar de relevante, admitimos que seria o cabo dos trabalhos mudar hábitos tão instalados. Daí que nos foquemos no absolutamente essencial e que é relembrar, para o caso de nos termos esquecido, que vivemos num planeta perfeito que todos os dias faz o seu caminho de forma impecável, sem oficinas nem custos de manutenção!

A uma agradável e discreta velocidade de 30 kms/s ou 108.000 km/hora! A velocidade certa e aconselhada para percorrermos sem percalços de maior os 930 milhões de Kms que iremos fazer juntos com o nosso planeta nos próximos 365 dias!

Uma boa época de sementeiras e uma boa viagem nós próximos 30 dias, para todos os que nos seguem, são os nossos votos! 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Catálogo Geral de Sementes de Flora autóctone - 2017-2018


Setembro é para nós o início  do Tempo de Semear e, como tal, a altura indicada para publicar aquele que será sempre o nosso catálogo mais importante: O Catálogo Geral de Sementes autóctones. Um catálogo que editamos pela 5ª vez e que na prática sintetiza um ano de trabalho intenso com um objectivo em em mente: O de disponibilizar a todos os que o pretendam, sementes do maior número possível de espécies autóctones que ocorrem no nosso país.

Germinar sementes é a melhor maneira de ter por perto as espécies silvestres que, seja qual for a razão que nos mover, quisermos ter por perto. E se é verdade que no nosso país não temos grande tradição de jardinagem, também é verdade que são cada vez mais aqueles que consideram a flora silvestre aquela que mais qualidades oferece se pretendermos ter jardins únicos, sustentáveis e sofisticados.

É evidentemente um mercado de hiper-nicho mas que por ser tão pequeno encerra em si toda a esperança do mundo: É que, qualquer que seja a perspectiva, só pode crescer! Como não nos cansamos de repetir, germinar sementes está longe de ser uma ciência esotérica e qualquer um, desde que munido de vontade, o poderá fazer.

O presente catálogo contém sementes de cerca de 371 espécies da nossa flora. Mais 31 que na edição do ano passado e que nos aproxima do número que já há  alguns anos temos em mente:  isto é, os 10% da nossa flora que, no mínimo, têm relevância ornamental. 

O catálogo não tem qualquer pretensão cientifica e organiza de forma simples as espécies pelos seus nomes científicos em categorias que são facilmente apreendidas pela maioria das pessoas que se interessam pela nossa flora.  e que a partir de agora Nesta edição é constituído pelos seguintes capítulos: 

  • Árvores - 42 espécies, tendo sido adicionadas as espécies de Quercus mais relevantes
  • Arbustos e sub-arbustos - 70 espécies, das quais destacamos novas espécies de Ericas e Thymus e a muito ornamental Cornus sanguinea
  • Trepadeiras - 13 espécies - mais uma espécie: Clematis campaniflora
  • Herbáceas - 205 espécies - adicionadas mais 11 espécies, destacando-se as Cerinthe major (Chupa-mel), Dianthus broteroi (cravinas-bravas) e Lysimachia vulgaris (Grande Lisimaquia)
  • Gramíneas - 25 espécies - mais uma espécie: Typha domingensis
  • Alhos e bolbos - 16 espécies.
Sempre que possível acrescentámos ainda o nome vulgar pelo qual a espécie é conhecida. No catálogo deste ano distinguimos também as espécies que além de ornamentais são consideradas como aromáticas, medicinais ou utilizáveis na nossa alimentação. Pelas diferentes categorias podem encontrar-se cerca de 40 dessas espécies, das quais destacamos a Valeriana, a Betónica e a Malva silvestre para dar apenas alguns exemplos.

Terminamos por fim e como já vem sendo nosso hábito com duas referências da maior importância. A primeira, de agradecimento a todos aqueles que nos têm ajudado a trazer á luz do dia este projecto e que das mais variadas formas ajudaram a consolidar este catálogo geral. A segunda, de apelo ao feed-back que qualquer um considere relevante enviar-nos. Todos os comentários, sugestões e criticas, são bem vindos. E essenciais para nós.



quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Tempo de semear e recomeçar



Se no último post partilhávamos o que para nós é, sem qualquer dúvida, o que não devíamos estar a fazer - e que na prática é transformar um país que, ao que nos dizem, já foi um jardim, num triste eucaliptal à beira-mar plantado, este será totalmente focado no seu oposto e no enorme espaço que sempre continua a existir para todos os que não pretendem entregar-se ao desalento.

Evidentemente a acção individual não resolverá estruturalmente problemas que carecem de decisões de planeamento do território em maior escala, mas pode fazer toda a diferença. E ainda mais se forem somadas muitas pequenas acções.

O "Homem que plantava árvores", conto de Jean Giono, que partilhámos nesta mesma página no início deste ano de 2017, AQUI,  tem esse potencial de inspiração e esperança que pode preencher qualquer um de nós.

Como escrevíamos na altura " o que é notável e inspirador neste conto de Jean Giono ( 1895-1970) são os diferentes níveis de leitura que ele possibilita. Descrevendo a acção de um pastor solitário que sozinho criou um novo bosque, fervilhante de vida, o que por si só é uma obra maior, o autor remete-nos subtilmente para as infinitas possibilidades da condição humana e que cada um de nós tem, por mais adverso que seja o contexto: O de recomeçar e persistir com esperança na mudança que queremos para cada um de nós e em nosso redor. 

É uma mensagem que se pode ler em todos os momentos do ano, mas que ganha ainda mais relevância nos momentos de recomeço, pelo que não nos cansamos de sugererir  o seu visionamento ou a leitura do livro.

É que Setembro, estando nós hoje a apenas 15 dias do equinócio de Outono, marca o início de um novo ciclo da vida no hemisfério Norte. Muito mais que 1 de Janeiro - o inicio do nosso calendário romano, hoje generalizado no mundo de cultura ocidental, é com o Outono que realmente há a oportunidade de recomeçar, semeando e colocando na terra o que queremos ver crescer e florir na Primavera/Verão de 2018.

Perspectivar o tempo de maneira circular, como faziam os nossos ancestrais pagãos, traz inúmeras vantagens sendo que a maior é mesmo liberta-nos da perspectiva linear dos "crescimentos constantes" a que a sociedade actual considera normal exigir e que não têm qualquer paralelo na Natureza que nos rodeia e da qual fazemos parte. Daí que, se há um regresso às aulas dos mais novos, também pode e deve haver um regresso à terra, ao jardim, à horta, ao bosque ou à floresta de qualquer um que não se resigne e queira recomeçar semeando.

Que o conto de Jean Giono possa inspirar mais alguns dos que nos seguem em novos recomeços, são os nossos votos!



quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A triste e insustentável eucaliptização do Litoral

Agosto de 2017 - margens da Lagoa de Óbidos. O novo eucaliptal,em baixo, contíguo ao bosque mediterrânico, em cima, foi igualmente eaté há bem pouco tempo um frondoso bosque .


Depois de alguns dias na costa vicentina e de regresso ao trabalho, partilhamos hoje, último dia do mês de Agosto, um post sobre um dos temas centrais que marcam irremediavelmente  a actualidade tal foi a violência dos incêndios que em 2 meses reduziram a cinzas vastas áreas do centro do país.

Fazêmo-lo neste último dia de Agosto, que  já tem cheiro de Outono, porque gostaríamos de reservar Setembro para aquilo que ele tem de melhor: preparar a nova época de sementeiras que se aproxima: Outubro e Novembro são os meses em que se decide o que se quer ver ver florir na Primavera de 2018 e para isso contamos acrescentar mais espécies aos nossos catálogos e apresentar novas ideias para quem quiser que este seja, aqui e agora, o momento de semear flora autóctone. Na horta, na varanda, no quintal, no jardim ou, porque não, no bosque que um dia se queira legar.

Porém, à parte os vitais e essenciais aspectos comerciais deste projecto - uma nano-empresa, diríamos, vitais para a sua sobrevivência económica, há questões centrais de cidadania às quais, mesmo visando nós a rentabilidade e o lucro, é impossível ficar indiferente.

E a questão central para nós, como já referimos em momentos anteriores, prende-se com a imperiosa urgência em conseguirmos, enquanto povo, implementarmos politicas de ordenamento florestal e territorial consistentes e com uma visão de futuro sustentável. Não pretendemos esgrimir argumentos - são diversos os especialistas, bem mais capazes do que nós, que nos últimos meses têm apontado as soluções. As quais, de forma alguma, estão acolhidas na reforma florestal, recentemente aprovada e sob-pressão, para descargo de consciências de alguns.

Dessas medidas agora aprovadas, que não conhecemos em profundidade, há todavia um aspecto que, pelo que temos lido nos jornais, nos deixa no mínimo perplexos: A diminuição da área de eucalipto das regiões agora ardidas terá por contrapartida o licenciamento de novas plantações, em progressiva menor área, no litoral do país.

Não percebendo nós muito bem como é que tal será implementado e fiscalizado e não tendo bem presente onde acaba o litoral de um pais com o máximo de 200 Km de largura, não deixa de ser muito estranho o rumo traçado.

Para começar porque não se percebe como serão recuperados os solos já esgotados do interior. Quem irá financiar essa recuperação? Como se faz? Depois porque o dito litoral está já hoje hiper-eucaliptado. Monchique, Lousã, Caramulo, Minho e por ai acima até à Corunha já foram entregues aos métodos associados à espécie. Significará que se irá licenciar a eucaliptização partes do litoral Alentejano (ainda mais)?) da região Oeste(ainda mais)? E como se fará a atribuição desse jackpot que é hoje poder plantar eucaliptos? Todos os proprietários poderão plantar ou só alguns? E se forem só alguns, de que forma serão ressarcidos os restantes que não acederem a essa lotaria???

Será a ideia substituir o Pinhal litoral por um Eucaliptal litoral à semelhança do que foi promovido no Pinhal Interior? `Será desanexar, com a facilidade que todos nós sabemos ser desporto nacional, solos agrícolas das bacias do Lis, do Baixo Mondego e do Baixo Vouga, onde a produtividade ainda é mais estonteante? Não sabemos e desconfiamos que ninguém saiba.

Na região Oeste em particular, onde estamos sedeados e que conhecemos bem, o eucalipto já avançou pelas areias litorais substituindo o pinheiro em muitos povoamentos a norte da Nazaré e até às matas nacionais. Entre Caldas-da-Rainha e Torres Vedras sucedem-se os novos povoamentos os quais  até nas margens da lagoa de Óbidos - um ecossistema que deveria ser reserva natural, no qual se gastam milhões de Euros em dragagens de desassoreamento, outrora povoada de fulgurantes bosques mediterrânicos - se plantam eucaliptos à pressa em pleno mês de Agosto, tal qual como noutras zonas de Leiria conforme relatado pela imprensa local (AQUI), procurando salvaguardar as futuras restrições da lei.

As imagens acima, das margens de um dos braços da Lagoa de Óbidos, dispensam quaisquer descrições tão evidentes são as diferenças de beleza, biodiversidade e respeito pelo solo. A manhosa técnica de arrotear tudo e qualquer arbusto para que só os eucaliptos vinguem, destruindo irremediavelmente a estrutura do solo e para que se a comunicação social exiba provas de que os eucaliptais são limpos pelos zelosos proprietários e logo ardem menos (pudera !) são suficientemente explicitas do que é que está em questão.

A ser executado é para nós óbvio que este é um caminho "mais do mesmo" e que  não acautela uma gestão estratégica do território. Que no futuro acarretará aos vindouros pesadas facturas.

Se na nossa opinião a monocultura de eucalipto deveria ser desde já fortemente limitada, admitimos que não é viável acabar com ela no imediato (embora nos pareça também óbvio que isso acabará por acontecer um dia, seja por obsolescência seja pelas alterações climáticas. E esse é um cenário sobre o qual deveríamos estar a pensar: o que fazer a um imenso território que daqui a algumas décadas vai estar ecologicamente destruído e sem qualquer proveito económico).

Nesta perspectiva, sendo insustentável que todo o litoral seja um imenso eucaliptal, resulta claro que, por uma questão de igualdade de condições de exercício dos proprietários florestais, a cultura do eucalipto só pode ser possível dentro de regras bem definidas e claras que não excluam povoamentos de outras espécies que assegurem uma função ecológica.

Fazer o que nos últimos 100 anos não fizemos, será complexo e demorado. Mas não será por falta de propostas em cima da mesa que não se fará o que tem de ser feito. Das muitas propostas, destacamos duas que nos parecem urgentes e de elementar bom senso:

A constituição de entidades responsáveis por áreas territoriais que, com escala, permitam uma floresta ordenada e com um mosaico de diferentes povoamentos, como defendido por Pedro Bingre do Amaral, é, também no litoral, uma evolução para qual deveremos caminhar o quanto antes. 

Encontrar formas de remuneramos colectivamente os serviços de ecossistema prestados por uma floresta diversificada e bem ordenada , desviando o que se gasta hoje, por exemplo, no combate aos incêndios em acções de prevenção e ordenamento, como defende o Arquitecto Paisagista Henrique Pereira do Santos, parece-nos igualmente outra proposta muito razoável e que permitirá suprir uma falha onde o livre-mercado-iniciativa não funciona e produz resultados que prejudicam a nossa sociedade no seu todo. 

Outras haverá, em diferentes vertentes, desde mentais, jurídicas e operacionais, mas sem estas, ou outras similares com igual alcance, que proporcionem uma efectiva administração do território com a escala necessária, dificilmente estaremos a caminhar no bom sentido.



sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Floresta Comum - Há sete anos a criar bosques



O Projecto Floresta-Comum, liderado pela Quercus em parceria com o ICNF e a UTAD, dedica-se desde 2010 a criar bosques autóctones. Desde o seu início já foram plantadas perto de 650.000 árvores de 60 espécies nativas diferentes em cerca de 168 concelhos do nosso país.

A nova fase de candidaturas a plantas do projecto Floresta Comum está aberta desde 28 de Julho e prolonga-se até 29 de Setembro, podendo  candidatar-se as autarquias ou outras entidades públicas bem comos órgãos gestores de baldios. As plantas estarão disponíveis para a próxima época de (re)arborização, de novembro de 2017 a fevereiro de 2018.

Sabendo nós que muitas autarquias são cada vez mais sensíveis ás iniciativas da dita sociedade civil esta é uma excelente oportunidade para que grupos de cidadãos promovam localmente a criação de espaços mais bio-diversos.
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Será uma gota no imenso mar da dita "floresta" de produção!?! Muito possivelmente. Mas há mares que se fazem de muitas gotas!

Mais informações sobre a fase de candidaturas AQUI.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Flores de Verão - Grande Lisimaquia e outras sugestões


Um dos desafios quando se jardina com flora autóctone é o de como florir o jardim numa estação em que há menos espécies em flor e os tons mais secos e castanhos tomam conta do que nos rodeia. Aprender a gostar de tons castanhos e aceitar que nas latitudes mediterrânicas esta é a época de maior stress para a flora, é cada vez mais importante e meio caminho andado para ter jardins mais ecológicos e sustentáveis.

Claro que nem todos gostam e as buganvilias e as  lantanas, exóticas amplamente disseminadas no nosso país , são a salvação de quem quer ter um Agosto sempre florido. Não temos nada contra, e se não se abusar nos arranjos multi-color, qualquer uma fica bem como apontamento.

Todavia, e por incrível que pareça a muitos, a verdade é que a nossa flora também tem espécies a florir com exuberância em Julho e Agosto. São é pouco conhecidas, apesar de estarem à vista de todos nós se formos observando a paisagem com olhos de ver.

Uma delas e das nossas preferidas é a Salgueirinha, Lythrum salicaria, sobre a qual escrevemos AQUI há cerca de dois anos. A sua floração prolongada e abundante fazem dela uma planta essencial para quem pretender florir zonas encharcadas de lagos ou solos mais húmidos.

Porém a abundância de espécies com enorme potencial ornamental de que dispomos, especialmente adaptadas a solos húmidos, é tal que nos escusamos a indagar porque é que no nosso país ainda só estão confinadas aos sítios onde ocorrem naturalmente. 

A Grande-Lisimaquia, de amarelos intensos, Lysimachia vulgaris, será porventura a mais injustiçada. Mas as outras, na foto seguindo o sentido dos ponteiros do relógio, não o são menos: O Trevo-cervino (Eupatorium cannabinum), a Salgueirinha (já referida acima, Lythrum salicaria), os Malmequeres -bravos (Leucanthemum lacustre?) os Epilóbios (Epilobium hirsutum) e o Ruibarbo-dos-pobres (Thalictrum speciosissimum) são apenas mais 5 espécies que facilmente e sem grandes riscos nos atrevemos a sugerir a quem puder tê-las por perto! 

E, acreditem, não esgotam as possibilidades! Facilmente se juntam mais 10 especies igualmente ornamentais que ajudarão a garantir um Verão sempre florido sem ter de recorrer a espécies exóticas!

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sobral Interior

(vista da aldeia Ferrarias de S. Joao, Penela, onde os sobreiros travaram de forma bem evidente o incêndio de Junho)


Há pouco mais de um mês Pedrogão Grande; há 15 dias nos distritos da Guarda e Vila Real, hoje em Mação, Proença, Oleiros, Nisa, Vila Velha de Rodão. Só um chegaria para arrepiarmos caminho, mas, aparentemente, tudo indica que o país vai ter de continuar a arder por muitos e bons anos até que nós, ou outros que venham a seguir  nós, encarem o problema de frente e ponham mãos à obra que terá de ser feita.

E o que terá de ser feito, como em quase tudo o resto, depende mais de uma visão politica de longo (longuíssimo) prazo do que de estudos científicos parcelares, diplomas legislativos avulsos e entidades da administração publica desconectadas entre si.

Ora, na nossa perspectiva, só há uma visão digna do nome: Ousar de uma vez por todas revolucionar o ordenamento de amplas áreas do nosso território do centro do país e das suas extensões florestais.

Pedro Bingre do Amaral, professor da Escola Agrária de Coimbra, para nós um dos que de forma mais consistente tem reflectido nos problemas da nossa floresta, publicou no seu perfil de FB, AQUI, poucos dias após os incêndios de Pedrogão Grande, a sua leitura do que poderá ser a região agora fustigada pelos incêndios e que para alguns é ainda conhecida como Pinhal Interior. Nas suas palavras poderá ser um grande SOBRAL INTERIOR. Como escrevia: 

"O centro de Portugal pode vir a recobrir-se com dezenas de milhar de hectares de montado de sobro, assim haja vontade política e cívica para isso. As vantagens serão várias: é mais fácil debelar o fogo num montado do que numa floresta densa; o sobreiro recupera melhor após o incêndio que os eucaliptos e os pinheiros; a cortiça é um produto com boa saída nos mercados internacionais, havendo pouca concorrência de outros países; o montado é particularmente favorável à biodiversidade, à cinegética, à produção de cogumelos e espargos, e ao ecoturismo."

Poderá ser um sobral, um cercal, ou um carvalhal, ou um misto de tudo isso e onde até pinheiros e eucaliptos caberão certamente, mas, independentemente, dos contornos de como isso pode ser feito, essa é a única visão de futuro sustentado que esta região precisa.

Ao fim de dois mil anos a desflorestar e 100 a florestar erradamente, seria de Homem um povo assumir o desafio de cuidar da terra que o alimentou durante gerações. E abdicar de vez da mania de que estes pobres solos têm ainda a obrigação, em pleno séc. XXI, de gerar rentabilidades alucinadas, cuja fasquia é marcada de forma distorçida pela indústria da celulose. Rentabilidades que nunca, em momento algum da nossa historia, a floresta teve. 

É empresa para os próximos 100 anos, e como tal pressupõe um amplo consenso na nossa sociedade. A questão, como é evidente, está em saber se alguma vez a conseguiremos por em prática. Se temos a vontade, a energia, a liderança e os recursos para o efeito. 

Muitos dirão que tal é impossível de concretizar. Talvez. Mas sem sonho, sem visão e sem rasgo nunca nada que valesse a pena se fez. São inúmeros os exemplos de sociedades que caminharam para um colapso anunciado porque no seu seio não conseguiram mobilizar as mudanças estruturais que se impunham e estavam à vista de todos. E casos há em que todas as partes seguiram seguras para o abismo, com a desculpa de que estavam a executar na perfeição o papel que lhe estava determinado.

Para nós, e felizmente para muitos outros, esta é a visão que se impõe e para a qual deveríamos mobilizar os nossos recursos económicos, técnicos e científicos. Ao serviço de uma visão de futuro, que é essa a ordem natural das coisas! Pode nao ser agora, mas sê-lo-á de certeza absoluta um dia.

Nem que seja daqui a alguns anos, depois de a industria da celulose colapsar por obsolescência!