quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Um Próspero 2016!



E chegámos ao último dia do ano! O dia em que habitualmente fazemos o balanço do ano que passou e nos tentamos a perspectivar o novo ano que nos é dado novinho em folha!

Para nós, chegar a este dia assume uma importância especial. É o segundo ano consecutivo do projecto, o que significa que apesar de todas as contrariedades e dificuldades encontradas no caminho,  conseguimos persistir no seu desenvolvimento. Adicionámos sementes de novas espécies aos nossos catálogos, alargámos os sítios onde é possível encontrar as nossos sementes e demos passos seguros na consolidação de uma ideia que pretende  ser sustentável e economicamente viável. 

Em 2016 queremos continuar a crescer e a contribuir para que cada vez mais as espécies da nossa flora autóctone e espontânea tenham um lugar de destaque. Disponibilizar a todos os que as queiram, as sementes das espécies mais emblemáticas da nossa flora é e continuará a ser em 2016 a nossa missão.

A todos os que nos seguem e aos muitos que das mais variadas perspectivas nos ajudaram durante 2015 a dar forma às sementes de Portugal ,  desejamos UM PRÓSPERO 2016!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Votos de Um Feliz Natal



A uma semana da noite de Natal, gostaríamos de deixar a todos aqueles que nos seguem, e que de uma forma ou de outra nos ajudaram a persistir durante o presente ano de 2015, os nosso votos de um Feliz Natal, pleno de saúde e esperança.

Se para alguns a natureza cíclica das coisas pode ser monótona, para nós será sempre a possibilidade de recomeçar. É sabido que as nossas actuais comemorações do Natal são hoje a roupagem de comemorações mais antigas e pagãs que assinalavam esse momento mágico em que o Sol vencia por fim as trevas: O solstício de Inverno, que este ano ocorrerá dia 22 pelas 04h58m, um pouco mais cedo que o oficial dia 24! 

E como tudo o que escrevemos há um ano atrás, aqui, continua a fazer todo o sentido, não resistimos a transcever o que na altura nos ocorreu partilhar:
"
O "Dies Natalis Solis Invictus", dia do nascimento do Sol Invicto, era celebrado em Roma por alturas de 21 a 25 de Dezembro e comemorava o facto de o Deus Sol ter derrotado por fim a escuridão. Eram três dias de comemorações, de troca de oferendas e que se queriam em abundância, que festejavam de um novo e renascido sol.

Quem semeia ou quer fazer crescer o quer que seja, e já pôde testemunhar alguns solstícios, sabe bem que as trevas desejam sempre ganhar. Mas ainda não foi este ano que levaram a melhor! Para todos os que nos seguem ficam os votos de um Feliz Natal, ou, se preferirem, um quente e abundante solstício de Inverno!""

Um quente e abundante solestício de Inverno para todos são, pois, de novo e uma vez mais, os nossos votos!

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Um prado florido!


Este é possivelmente um dos posts que mais satisfação nos dá poder partilhar por estes dias. Desde o início do projecto que temos procurado difundir e divulgar o potencial ornamental e paisagístico da nossa flora autóctone, mas focando-nos sobretudo nas espécies arbustivas e evidenciando-as isoladamente. 

Porém, a ideia de um dia podermos disponibilizar  outras soluções, à semelhança do que acontece noutros países europeus com França e Inglaterra, propondo misturas de sementes capazes de responder a necessidades e objectivos mais exigentes, esteve sempre entre os nossos objectivos.

É um facto que no nosso país a procura de prados floridos ainda é relativamente diminuta. Todavia, quem pretende ter uma solução diferente de um relvado verde monótono e aparado, sempre exigente em regas e em manutenção, dificilmente encontrará uma alternativa. E quando encontra, o mais provável é encontrar misturas de espécies cuja grande maioria nem ocorre no nosso país. Curiosamente e a título de exemplo é hoje mais fácil encontrar misturas contendo papoilas-da-califórnia (Eschscholzia californica) do que as simples papoilas que povoam as nossas searas.

Claro que prados há muitos e para todos os gostos. Daí que a nossa proposta  seja antes a de de dar a possibilidade de escolha. Desde um relvado mais simples e baixo coberto de margaridas e dentes-de- leão, até  um prado mais alto em que pontuam espécies como o pampilho ou a Anchuza azurea.

Pelo meio,  a nossa proposta preferida é uma mistura de sementes standard para uma área de 20 m2 e que, além de 4 gramineas base, conterá uma mistura com cerca de 20 espécies autóctones portuguesas. Um prado que além de não exigir manutenção, proporcionará florações alargadas entre o fim do Inverno e o início do Verão! E este é um aspecto particularmente importante para nós. Não só pelas mais do que legitimas necessidades estéticas que qualquer um de nós tem, mas principalmente pelo óbvio enriquecimento que proporcionam a qualquer jardim ao fornecerem alimento a um sem número de insectos polinizadores.


terça-feira, 3 de novembro de 2015

As incríveis viagens de Hoffmansegg e Link em Portugal



Se quem nos segue for tão leigo nas matérias da botânica e da história das ciências naturais como nós, este é sem dúvida um tema que possui todos os ingredientes necessários para prender a sua atenção. Se no final tivermos despertado em alguns a mesma curiosidade deslumbrada que nós experimentámos quando ouvimos pela pela primeira vez a sua apresentação, então já terá valido a pena a ousadia de abordarmos em tão pouca linhas o extenso trabalho de investigação exposto no livro do Prof. Nuno Gomes Oliveira "A Flore Portugaise e as viagens em Portugal de Hoffmansegg e Link (1795 a 1801), editado pela Chiado Editora na primavera passada.

O livro, que resulta do trabalho de investigação realizado pelo Prof. Nuno Gomes Oliveira  para a sua tese de doutoramento na Universidade de Coimbra, aprofunda um dos capítulos pouco conhecidos da história da nossa botânica e que foi empreendido há cerca de 215 anos pelo conde de Hoffmansegg, um rico nobre prussiano,  e pelo professor universitário J. Link, com o propósito de efectuarem o levantamento da flora que ocorria espontaneamente no no nosso território. As viagens que concretizaram no nosso país,sobretudo entre Fevereiro de 1798 e Agosto de 1801, culminaram na edição de uma monumental "Flore Portugaise" impressa em Berlim a partir de 1809 e que continha 114 gravuras impressas e coloridas manualmente de outras tantas espécies da flora portuguesa, entre as 659 descritas.

Essa "Flore Portugaise", teve muito poucos exemplares (sendo que um, graças a um investimento recente da C.M. de Vila Nova de Gaia, se encontra entre nós, na biblioteca do Parque Biológico de Gaia), e foi à época e a todos os níveis uma obra notável, seja pela dimensão/qualidade das gravuras, seja pelo rigor cientifico com que pretendeu ser feita, culminando o que provavelmente foi a "empresa de uma vida" na qual o conde de Hoffmansegg investiu, aos 30 e poucos anos, largas somas da sua fortuna pessoal.

Como somos manifestamente incompetentes para entrar em detalhes, seja sobre a "Flore Portugaise" seja sobre o livro recentemente editado, é nessas duas pessoas e nas viagens que por cá realizaram que gostaríamos de centrar a nossa atenção.

Habituados que estamos pela "historiografia oficial" a pensar que Portugal e os Portugueses só descobriram, séculos a fio e sem descanso, esquecemos-nos facilmente que também nós fomos observados e "descobertos". Esta perspectiva, que de resto não tem aqui os únicos exemplos ( são também conhecidos os relatos de outros viajantes famosos que por aqui passaram, sobretudo no século XIX), é todavia de conhecimento muito restrito para a maioria de nós. Ainda hoje, certamente pela endémica baixa auto-estima, consideramos pouco verosímil que algo entre nós possa ter sido objecto de observação. Quanto mais as nossas ervas bravas. Se hoje pouco interesse têm, como é que há 200 anos motivaram uma estadia tão prolongada -quase 3 anos e meio,  de dois homens de ciência vindos de tão longe!?!?

Ora essa é talvez a parte mais cativante desta história. Como terão oportunidade de constatar na leitura do livro, a vinda do conde de Hoffmensegg, um jovem erudito que queria acrescentar algo ao efervescente e já competitivo meio científico que prosperava em toda a Europa, decorre de Portugal ser, nessa altura,  visto lá fora como a última fronteira desconhecida onde quase tudo estava por fazer em matéria de ciência. Um país ainda entregue à ignorância de uma das mais empedernidas monarquias absolutistas e que, apesar dos esforços de modernização do Marquês de Pombal, persistia  arredado dos novos ventos de progresso.

O relato das viagens realizadas, editado separadamente por Link em 1803 na Alemanha no livro "Voyage en Portugal" (abordado também neste trabalho do Professor Nuno Gomes da Silva e que já em 2005 tinha sido alvo de tradução pelo Prof. Fernando Clara da faculdade de ciências da Universidade  Nova de Lisboa) merecem por si só a leitura atenta.

Na pratica Portugal inteiro foi visitado. De Lisboa ao Porto, Minho o Gerês e o Marão. O Algarve todo, o Nordeste transmontano e grande parte do Alentejo. Alguns trajectos foram feitos duas vezes. Tudo isto numa altura em que circular no nosso território além de extremamente difícil, dada a pobre rede viária, só se fazia com um salvo-conduto  e correndo riscos de segurança. Mas  Link não se limita a descrever a flora encontrada. Pelo contrario, tudo lhes interessava e além descrições sumárias das terras e cidades visitadas, avaliavam também o estado geral de desenvolvimento da nossa agricultura, mineralogia e florestas (temas da maior importância numa Europa que se preparava para a passos largos para a industrialização).

São também diversas as vezes em que não perde a oportunidade de aplicar o seu olhar critico e sagaz sobre o que lhe parecia ser  mediocridade geral das elites que governavam o reino na altura. Ao precioso e delicioso retrato sócio-económico de Portugal, poucos anos antes de ser invadido pelas tropas de Napoleão, Link junta ainda o relato de algumas das peripécias recambolescas que sucederam à comitiva nos quase três anos e meio de viagens. De incríveis viagens pelas províncias do Reino de Portugal e do Algarve e que urge serem mais conhecidas entre nós.
Johann Centurius Graf Von Hoffmannsegg e Johann Heinrich Friedrich Link

domingo, 25 de outubro de 2015

Barretes de padre


No dia em que entramos definitivamente no Outono - a mudança de hora e o consequente anoitecer "prematuro", são para muitos a marco inexorável da estação, aproveitamos para colocar a nossa atenção numa das regiões de Portugal que na nossa perspectiva merecem ser visitadas nesta altura do ano. 

Existem muitos lugares onde as paisagens se cobrem de magnificas cores outonais, mas onde os tons de cobre e dourado das folhas nos são dados de forma mais gloriosa estão sem sombra de dúvida no Norte de Portugal e em particular particular no Nordeste Transmontano.

Vem isto a propósito de uma viagem que tivemos o privilégio de fazer há cerca de um ano atrás tendo por principal objectivo o de ver com os nossos próprios olhos aquela que é considerada a árvore mais rara de Portugal: O evónimo europeu, ou, como também é chamado localmente nas terras da Serra da Nogueira e de Vinhais, barrete-de-padre.

Curiosamente, apesar de ser extremamente rara no nosso país, esta espécie de porte arbustivo mas que pode alcançar a forma arbórea, é vulgar nas orlas das florestas da Europa central sendo ainda amplamente  utilizada como planta ornamental noutros países. Com preferência por solos profundos e ricos em matéria orgânica foi aqui, nos lameiros da terra-fria transmontana, que esta espécie fixou o limite mais meridional da sua distribuição natural.

Conhecida por produzir uma madeira extremamente dura, utilizada no fabrico de fusos, o botanicamente classificado como Euonymus europaeus, tem nos seus frutos, de cor rosa (ou fucsia) e cuja forma faz lembrar a dos barretes dos padres dos séculos passados, o motivo de maior admiração.

O segundo maior motivo de admiração é o " E porque é que não são hoje amplamente utilizados na jardinagem urbana das cidades e vilas desta região?". Da nossa experiência, resultou observar que a germinação das suas sementes não apresenta problemas de maior. E se existisse essa vontade, observar barretes de padre poderia perfeitamente ser mais um cartão de visita a juntar aos (muitos) outros que a região já apresenta. 

É que não se encontra em  sítios acessíveis pelo que a única forma de os observar hoje é mesmo a que nós fizemos há um ano. Verdade que depois de encontrado se fica com a clara sensação de dia ganho, mas não é de desconsiderar a quantidade de lameiros que têm de se transpor até que se encontre um. E isto se se encontrar! 

Para quem pretender saber mais sobre esta espécie deixamos aqui o link para a sua ficha no florestar.net!

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Catálogo Geral Sementes Autóctones - 2015-2016



Novo catálogo aqui:https://drive.google.com/file/d/0B9sKCKBDDsItWTg0VVQ3YmNfNzg/view?usp=sharing

E pelo terceiro ano, publicamos o novo catálogo geral de sementes da flora autóctone portuguesa! Pela primeira vez conseguimos publicá-lo na altura em que consideramos que um catálogo de sementes deve ser publicado: no início do Outono, a melhor estação para por as mão na terra e experimentar germinar sementes.

Face ao do ano passado, o catálogo deste ano regista um incremento significativo do número de espécies autóctones cujas sementes conseguimos recolher, limpar e conservar. São 309 espécies organizadas em 5 categorias, das quais destacamos aos seguintes aspectos:

 - Um número mais significativo e representativo de arbustos e sub arbustos;
 - A duplicação do número de espécies herbáceas, que passou de cerca de 90 para perto de 180;
 - A inclusão de uma nova categoria para as sementes de gramíneas, das quais contamos com cerca de 24 espécies.

Na elaboração do presente catálogo, o que é o mesmo que  dizer do nosso trabalho ao longo do último ano, foi nossa principal preocupação a de incluir mais sementes das espécies que de alguma forma pudessem ser alvo de procura individual, seja para fins ornamentais, paisagísticos, ambientais ou "hortícolas". 

Como seria de esperar não é ainda o catálogo "perfeito" que gostaríamos de poder publicar! Mas ficámos mais próximos: das cerca de 4000 espécies que compõem a flora autóctone portuguesa estamos perto dos 10% que na nossa perspectiva podem e devem ser por nós utilizadas de forma mais generalizada.

Como é claro também, não estamos a publicar um catálogo destinado ao grande-consumo. Mas bastará haver uma única pessoa interessada nas sementes de uma dada espécie recolhida para já ficarmos satisfeitos pelo facto de a termos incluído!

Terminamos com duas referências da maior importância. A primeira, de agradecimento a todos aqueles que nos têm ajudado a trazer á luz do dia este projecto. A segunda, de apelo ao feed-back que qualquer um considere relevante enviar-nos. Todos os comentários, sugestões e criticas, são bem vindos. E essenciais para nós.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Equinócio de Outono: Chegou o tempo de semear



Contrariamente ao que normalmente costumamos pensar, nem sempre as mudanças de estação são aos dia 21. Este ano, e de acordo com o Observatório astronómico de Lisboa, o equinócio de Outono ocorrerá amanhã, dia 23, pelas 9.20. 

Nesse momento, pelo menos em termos de percepção, a duração do dia igualará a da noite, isto é,  ambos terão 12 horas cada um. De assinalar que os dias já vêm a decrescer desde o solstício de Verão, em Junho passado, e assim continuarão até ao próximo dia 22 de Dezembro.

É pois a altura perfeita para recomeçar um novo ciclo, algo que para nós, centrados nas sementes, assume um significado ainda mais especial. É durante os próximos dois meses que se conjugam as condições perfeitas para semear e transplantar para os lugares definitivos a maior parte das nossas espécies.

Muito em breve partilharemos o nosso catálogo geral de sementes 2015-2016 onde contamos disponibilizar um numero ainda mais significativo das espécies mais emblemáticas da nossa flora autóctone e assilvestrada. Até lá, mudamos as roupas para os dias de luz coada e desejamos a todos os votos de um bom reinício de ciclo!


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Plantas e flores do fim do mundo


Vai-se a Sagres e ao Cabo de S. Vicente e, mesmo que não se tenha ali ido com essa intenção, percebe-se que se está em peregrinação. 

Muitos vão lá hoje porque algures no tempo nos coube o mérito de transformar aquele ponto de chegada num incrível ponto de partida. Mas, apesar disso, Sagres e o Cabo de S. Vicente serão sempre um ponto de chegada. Um fim-do-mundo. 

Um dos muitos fins-do-mundo que existem pelo mundo e que há milénios nós escolhemos para nos relacionarmos com o invisível. Os promontórios, os abismos em que a terra acaba, um mar que nao tem fim à vista e percebemos logo que aquela terra não pode ser só nossa. Apenas nos coube em sorte o privilégio de a administrar. Todos os que andam pelo seu pé, pelo menos uma vez na vida, têm o direito de também ali chegar.

Porém, Sagres e o cabo de S. vicente não são só especiais pela sua particular geografia de serem os pontos mais a Sudoeste da Europa. Os Habitats diversos, de sapais, falésias, rios, dunas, matagais e bosques mediterrânicos da costa vicentina fazem desta região um património único que se pode gabar de albergar o número mais significativo de endemismos exclusivos como o Cistus ladanifer subsp sulcatus ou  o Teucrium vicentinum, para citar apenas alguns exemplos.

Mas os endemismos são apenas a cereja no topo-do-bolo para quem visita este territorio. A multiplicidade de paisagens naturais e humanizadas; as perto de 1000 espécies que aqui ocorrem e o facto reconhecido de esta ser uma das linhas de costa mais bem preservadas da Europa, fazem desta região de Portugal um spot incontornável a visitar e usufruir sempre que se puder.

Claro que se pode sempre deambular sem um roteiro prévio e simplesmente absorver o muito que os sentidos têm para captar, mas se levarmos algumas ajudas é garantido o benefício. O livro 200 Plantas do SW Alentejano& Costa Vicentina, lançado esta Primavera e resultado da iniciativa das guias de Natureza Ana Simões e Ana Cabrita, é uma dessas ajudas. 

São 200 plantas, das mais de 1000 que ali ocorrem, e que são o degrau que faltava para que leigos e curiosos, simples amantes do que os rodeia, começem a descortinar uma parte do que observam. Só por isso, pela possibilidade nos ajudar a dar nomes ás coisas, já vale a pena ter este guia! 

O facto de ser resultado do esforço árduo de duas pessoas que não sendo botânicas de formação nao se negaram a aprofundar e partilhar o que sabiam, de todos os textos serem bilingues (português-Inglês), de ter um grafismo exemplar e de ser de muito fácil leitura, são simplesmente motivos adicionais para adquirir o guia! E que nos fazem desejar que esta iniciativa possa ser inspiradora noutras regiões do país!


terça-feira, 8 de setembro de 2015

Flores no fim do Verão

cardo-do-visco -  Atractylis gummifera

A propósito de uma visita a Sagres e ao cabo de S. Vicente, escrevemos hoje sobre duas plantas que, aparentemente sem razões plausíveis, têm o estranho hábito de florir por esta altura. Não que sejam especialmente raras, que não são, pois encontram-se disseminadas um pouco por todo o território centro e sul de Portugal, mas foi ali, na Costa Vicentina, que acabámos de as ver. Sinal pois de que é o momento certo para partilhar o que já há algum tempo andávamos para escrever.

Apesar de relativamente vulgares a verdade é que a maioria de nós nem dá por elas. Por distracção, porque apesar de tudo são facilmente notadas. Quer o cardo-do-visco (Atractylis gummifera) quer a cebola-albarrã (Urginea maritima) são plantas cuja flores, de inegável beleza, têm o mau feitio de se fazerem em contra-ciclo. Quando quase tudo o resto passou a maior parte dos últimos três meses a amadurecer sementes e, se possivel a tentar chegar vivo a um novo ciclo, estas estiveram recolhidas no solo, escondendo todos os sinais de vida da superfice. Para elas, o momento certo para se revelarem é mesmo nos últimos minutos do filme.

Perante tal incompreensibilidade há mesmo quem chegue a desconfiar da atitude, enventualmente um pouco trocista, face á miséria generalizada em seu redor. Dcidir florir nesta altura ...quase que parece de novo-rico.... Há tambem quem lhes anteveja o papel melancólico, próximo do das populares sul-africanas acucenas. de terem a seu cargo a  tarefa odiosa de anunciarem aos humanos a enorme desgraça que é o fim do Verão e o consequente início da descida ao Inverno. 

Para nós porém, que não somos antropocentricos, a  missão destas florações a destempo são tão só e apenas uma. São o alento para que as inumeras espécies vizinhas, que penam há meses à chapa do sol, não desistam. Incitam-nas a não desesperarem e que dêm tudo por tudo nesta recta final da maratona. Mais alguns dias apenas e chegarão com vida ás primeiras chuvas que aí vêm. São, se quisermos, na popular linguagem de gestão, flores motivacionais e, como tal,  fundamentais para um jardim que se quer a trabalhar em equipa,

Estas evidências tornam pois a sua presença ainda mais incontornável e pertinente num jardim. Tê-las é ter a segurança de um marcador preciso e infalível  que nos avisa, subtil e sem uso de alarmes ruidosos , que vem aí um novo tempo. O tempo de recomeçar. 

Ou, dito de outra forma, que se arrume o que eventualmente se colheu, e que se preparem as sementes do que se quer ver florir na Primavera de 2016. Todos os elementos, o Sol, as chuvas, os planetas estão todos a dar os passos necessários para a sincronização geral apurada ao longo de milhões de anos.

Não há dúvidas. Nesta latitude, tudo se compõe para começar em breve um novo ciclo!

cebola-albarrã - Urginea maritima

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A árvore das miragens



O título deste post é conscientemente abusivo. Que nós saibamos nao existem árvores de miragens, mas a espécie que hoje tentaremos pôr em evidência é de tal modo pouco conhecida, que para nós, e certamente para muitos outros, não passou durante muito tempo de uma miragem.

Árvore das miragens ou árvore mítica, pois além de pouco frequente, o seu nome científico, Myrica faya,  tem os requisitos certos para fazer sonhar todos os que a procuram e tardam a encontrar. As miragens são quase sempre isso: um alimento de emergência para que quem procura não desista!

A myrica faya, ou samouco - um nome vulgar bem menos elegante, é uma pequena árvore que ocorre espontaneamente nos pinhais arenosos da costa ocidental portuguesa. O mais certo é até já termos passado por ela e nem termos dado conta, uma vez que em termos de porte assemelha-se a uma outra espécie que por cincidência até compete com ela forma desleal, o mióporo (Myoporum laetum), uma espécie exótica amplamente utilizada na nossa jardinagem, apesar de poder ser considerada invasiva.

Parecida com o loureiro, é aliás sua contemporânea, partilhando com ele o facto de terem feito parte das florestas tropicais que cobriam o nosso território há 65 milhoes de anos e que sobreviveram aos periodos glaciares (iniciados ha 2,6 milhoes de anos e que persistiram até há cerca de 12.000 anos). E com efeito, a Myrica faya é uma das espécies que compõem a floresta laurissilva dos Açores, onde é ainda hoje abundante nomeadamente no Faial. Tanto que, como nos conta aqui o blogue dias com árvores,  nos meios científicos subsiste ainda hoje a dúvida se esta espécie é mesmo autóctone de Portugal Continental ou se aqui foi introduzida no século XVI após a descoberta das ilhas Atlânticas.

Dúvidas á parte, uma certeza subsiste: é uma pequena árvore com inegáveis qualidades ornamentais. De folhagem perene, em regra sempre verde, e, ao que apurámos, de crescimento relativamente rápido só nao gosta de geadas e frios extremos.  E que além do porte, oferece-nos no Verão uns igualmente estéticos frutos negros, de textura aparentada com a dos medronhos, embora mais pequenos, como é visivel na foto.

Para terminar deixamos duas sugestões. Primeira,  para quem quiser saber mais sobre esta espécie, que de link em link se deliciem com as inúmeras "estorias", usos e factos  á volta desta e de outras espécies da familia das Myricaceae (acreditem, não são poucas!) e, segunda sugestão, a quem puder e se dispuser a isso, a sua utilização como árvore ornamental. Teremos certamente bons companheiros para os neo-zelandezes metrosideros que nos últimos anos parecem ser a única espécie que existe para aprimorar as requalificações das nossas cidades e vilas costeiras!

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Um novo catálogo


Disponivel aqui: https://drive.google.com/open?id=0B9sKCKBDDsItZVpSeFhaSTJjVEk

Desde que há cerca de um ano disponibilizámos pela primeira vez sementes de flora autóctone num formato em que até esse momento  não era possível encontrá-las, muita coisa já aconteceu e a experiência tem sido, diriamos, vertiginosa. O que não deixa de ser curioso pois apesar de tudo o foco da nossa actividade está totalmente sincronizado com os bem mais lentos ciclos da Natureza.

Ainda assim e depois de em Março termos adicionado 20 novas espécies ás iniciais  23, aqui, temos vindo a trabalhar na identificação e colheita de sementes de mais algumas espécies que em nosso opinião deveriam fazer parte das espécies "essenciais" que todos nós deveriamos ter por perto. A nossa vontade será chegar em breve a um catálogo com 60 espécies!

Entretanto e enquanto não alcançamos ese objectivo, republicamos o nosso catálogo de pacotes de sementes num novo layout e traduzido em 4 linguas: Inglês, Espanhol, Françês e Alemão. Não foi fácil chegar a ele, mas com a ajuda de amigos na tradução e o excelente trabalho gráfico da Supernova, pensamos que o objectivo está cumprido: Facilitar a partilha com todos aqueles que nos visitam as indiscutíveis qualidades da nossa flora espontânea!

A todos os que nos ajudaram a concretizar este objectivo, o nosso obrigado!

E a todos os que o consultarem, os votos de que possa ser de alguma utilidade! Sobretudo na partilha com amigos e conhecidos que não dominem bem o Português. Como é evidente todos os feed-backs serão bem vindos! 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Salgueirinha



Se, como dizemos, a grande maioria da nossa flora não tem por hábito florir nos meses de Verão, então quando se passam meses seguidos sem chuva e de calor acentuado- tecnicamente e para os mais distraidos, estamos a observar um período de seca! vislumbrar uma planta em flor é sempre motivo de regozijo.

E a verdade é que as há e nem estão assim tão escondidas ao ponto de ser impossível encontrá-las. Uma delas e que colhe as nossas atenções é a salgueirinha ( Lythrum salicaria) habitual nas margens de pequenas ribeiras e linhas de água um pouco por todo o país, e em particular no Douro Litoral e Minho onde, a caminho das praias e pelo meio dos campos, se podem observar em linhas continuas as suas espigas de flores rosadas.

Mas não é a única espécie que em habitats humidos floresce nos meses de Julho e Agosto. A hortelã-de-água (Mentha aquatica), o trevo-cervino (Eupatorium cannabinum) ou o hipericão-das-ribeiras, chamamos-lhe nós, (Hypericum undulatum), são apenas mais algumas espécies que tambeem o fazem quase em simultâneo e muitas vezes nas vizinhanças de umas e outras.

Claro que no meio de tanta secura, um festival de flores até pode ser considerado ofensivo. Porém, e susceptibilidades á parte, são em nossa opinião espécies que fazem todo o sentido nos lagos e charcos, felizmente cada vez mais frequentes, da jardinagem particular e pública. Aliás, em mateéria de vegetação para solos mais frescos, humidos ou encharcados o que a nossa Natureza não nos nega são boas sugestões. E se considerarmos os juncos, então o problema ja será mesmo o de escolher por entre tanta variedade.

De qualquer das formas "Roma e Pavia não se fizeram num dia" e tendo de começar por algum lado, a nossa sugestão recai nesta: a Ssalgueirinha. E enquanto não a temos em casa nada como ir disfrutando dela nos sitios por onde formos passando neste Verão!

domingo, 26 de julho de 2015

Viúvas, belas e discretas


Depois de quase um mês sem partilharmos o quer que seja é mais dificil recomeçar. Por um lado o número de coisas que gostariamos de publicar aumenta e acumula-se mas, em direcção inversa, sabemos que de alguma forma se interrompeu um fluxo. E sem justificação plausível ou que interesse a quem nos segue, sucedem-se os dias sem que consigamos quebrar a ausência. 

O que nos vale é que em matéria de flora autóctone existem sempre bons assuntos para voltarmos a publicar. É sabido que no nosso território continental estamos numa altura em que já não são muitas as espécies a florir: as temperaturas e a disponibilidade de água encaminham a grande maioria das espécies para o fazer durante o fim do Inverno e a Primavera. Essa é, provavelmente e apenas por dedução lógica nossa, uma das razões da utilização de espécies de outras latitudes nos nossos jardins e varandas: a sua floração nos meses de Julho e Agosto. E como sabemos num garden -center o que se vende bem são as espécies que garantem exuberante florações neste meses mais secos.

Mas ainda assim há algumas espécies nativas que florescem mais tarde que as restantes. Uma delas e que colhe a nossa admiração é uma planta discreta, relativamente rara, que tem preferência por lugares de sombra e alguma humidade. Conhecidas como viúvas é possível dar por elas nos muros de Sintra, bem como nos taludes de algumas estradas na região centro e Norte - Litoral. Depois, do Porto para cima, no Minho e na Galiza, são várias os sítios em que com alguma atenção se conseguem vislumbrar facilmente os mantos lilazes das suas inflorescências  em forma de umbela.  

É certo que ja não em Portugal, mas é ainda nos muros do centro histórico de Santiago de Compostela e da própria catedral, sobretudo nos que estão orientados a norte, que é possível encontrar algumas das populações mais significativas desta planta e onde são claras as suas inegaveis qualidades ornamentais.

Curiosamente estas viúvas, cujo nome botânico é Trachelium caeruleum, pertence á famíla Campanulaceae, a mesma família a que pertencem os botões-azuis que referenciámos na nossa ultima entrada e que também são uma espécie a ter debaixo de olho.

Para terminar deixamos aqui o link para a entrada que Francisco Clamote escreveu sobre esta espécie e onde, além de informação adicional, é possível encontrar mais e melhores fotos.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Reconstituir afectos em Castro Daire



Aqui há uns tempos numa palestra dada na Festa da Primavera do Jardim Botânico da Ajuda, Lisboa, o Antonio Romano, do projecto Eva Dream - Florir Portugal, teve oportunidade de voltar a repetir pela enésima vez  a sua tese, simples e óbvia, de que os tempos dificeis que hoje atravessamos só serão verdadeiramente ultrapassados quando voltarmos, sem vergonha nem complexos, aos afectos.

Quase que parece pueril de tão simples. Mas não é. São mesmo os afectos, a força desmedida e avassaladora do sonho. que encerram a única força capaz de nos devolver uma brisa no rosto! 

E foi essa a ideia que sem estarmos à espera voltámos a ouvir, mas desta vez da boca de Albino Poças, o principal impusionador da recriação da "última rota de transumância" realizada no fim de semana passado em Castro Daire: O que ali se fez não foi uma recriação histórica. Nada disso. Foi, isso sim, uma emocionante e magistral reconstituição de afectos.

Como em tudo o que brilha, podemos olhar a iniciativa de Castro Daire de muitas perspectivas. uma forma promover o seu território e a serra de montemuro, de atrair turistas, de fortalecer a auto-estima da população que ainda resta, de animar as suas festas de S. Pedro, de mostrar algo que as televisões possam usar para dizer ao mundo de como era "antigamente".  Todas elas são verdade e quase todas válidas. Mas a melhor, a que vale mesmo a pena reter, foi dada pela população que recebeu com palmas a entrada dos rebanhos na cidade Acompanhadoselos pastores dos rebanhos de hoje e pelos mesmos antigos pastores da base da Serra da Estrela que há cerca de 15 anos o fizeram pela última vez em busca dos prados de Montemuro e que, sabendo da recriação, não quiseram faltar.


É verdade. que a economia e o passar dos tempos se encarregaram de tornar obsoletas e impraticáveis as seculares rotas de  transumância que existiram no nosso país. Mas recriá-las da forma como se fez este fim de semana em Castro Daire, está muito longe de ser um teatrinho inodoro para passar nas televisões. O que ali se viu foi mesmo gente a reconstituir-se orgulhosamente!

Dito isto, que era o que de mais importante havia a reter, não esquecemos que este é, apesar de tudo, um projecto centrado na flora nativa do nosso território. Até porque uma das razões de termos participado na actividade da Nómadas, foi a de ficarmos a conhecer a flora daquela região pelas veredas de antigos pastores.

O percurso, corresponde na prática e fielmente aos troços percorridos nos dois últimos dias, dos seis  que todos os anos milhares de ovelhas e cabras percorriam guiadas por pastores e cães serra da estrela. È um percurso marcado por diferentes espaços bio-climáticos, o que é o mesmo que dizer, por uma flora bastante diversificada, A começar nas gramíneas do planalto beirão e a acabar nas orquídeas em flor dos lameiros ainda encharcados das vertentes de Montemuro,

Mas a planta que destacamos, que mais nos acompanhou ao longo do percurso, e uma das nossas favoritas há ja bastante tempo, é a que dá pelo nome vulgar de botão-azul ou, se preferirem, Jasione montana. Olha-se e volta-se a olhar à procura de um defeito que justifique a ausência destas flores da nossa jardinagem e não conseguimos. Vulgar em todo o território nacional, indiferente ao tipo de solo, apenas pede que não a exponham em demasia ao sol. O que é que é mais preciso?

Para nós é, indiscutivelmente e a menos que nos convençam do contrário, uma planta perfeita para voltar a sonhar!


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Erva de S.João




Como hoje é dia de S. João, esta é a oportunidade perfeita para escrever algumas linhas sobre uma planta que sendo frequente é hoje desconhecida da maior parte de nós, a Erva-de-S.-João, ou Hypericum perforatum. Isto, apesar de ser muito frequente nos nossos campos - ocorrendo praticamente em todo o território nacional, e das flores de cor e forma inegavelmente vistosas.

Popularmente é tida como uma planta medicinal com inúmeras aplicações e resultados comprovados: Em infusão,  das folhas e flores, apresenta bons resultados no tratamento de problemas de asma, bronquite e, mais modernamente, no alivio dos sintomas de depressão.  Existem igualmente inúmeras receitas populares que o utilizam em macerações de azeite ou aguardentes, consoante os propósitos.

O facto de atingir o seu máximo de floração no mês de Junho talvez esteja na origem do seu nome. Em muitas localidades acreditava-se que o dia de hoje era o dia mais indicado para  o colher, uma vez que seria neste dia que os seus principios activos estariam no seu vigor máximo.

Mas para nós é o seu potencial ornamental que mais nos chama a atenção. Para começar é uma planta perene vivaz. Isto é, podem-se cortar as hastes floridas por esta altura do Verão que é certo que voltará a renascer ainda com mais vigor no próximo Outono. A possibilidade de ao fim de alguns anos termos moitas de hastes floridas é pois muito grande.

Em segundo lugar é uma planta que se adapta a todos os tipos de solo. Embora tenha preferencia por solos mais frescos e sem exposição excessiva ao sol, onde não precisa de qualquer cuidado, é pssível utilizá-la nos mais diferentes espaços.

Para terminar e para quem hoje usufrui um dia de feriado municipal - e não serão poucos, tal é o número de concelhos que dedica o dia de hoje a um dos santos mais populares, sugerimos um pequeno passeio pelas imediações para colher um bom ramo de Erva-de-São. A pendurar depois em lugar seco e à sombra.  Após uma a duas semanas estará em condições de ser utilizado!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Verão



E estamos no Verão, a estação preferida da maior parte de nós! Para nos acompanhar nos próximos 3 meses, mudamos de vestes, arrumamos as margaridas (Bellis perennis) que nos acompanharam durante toda a Primavera, e colocamos uma nova foto de capa mais alinhada com as paisagens desta altura do ano.

Paisagens que são mais secas, mas nem por isso menos dignas de admiração. Exceptuando as ilhas e algumas zonas do Minho, onde a pluviosidade ainda permitirá algum verde,  grande parte do nosso território entra agora no período mais desafiante em termos de sobrevivência: sem chuva, uma boa parte da nossa flora reserva esta altura para amadurecer as suas sementes ( se não o fez já!) e deixa morrer a sua parte aérea. O fundamental é garantir que as raízes se conservem no solo,  tão frescas quanto possível, para depois lá para setembro/Outubro voltarem a renascer e assim iniciarem um novo ciclo de vida.

Mas como diziamos acima, as nossas paisagens estarão mais secas mas nem por isso menos dignas de interesse. A imagem da nossa capa de Verão é de uma planta anual que pode ser frequentemente avistada no Algarve, nomeadamente nas estradas secundárias do Barrocal. Parece uma flor seca mas convém notar que já não o é. Na realidade o que vemos é o "arranjo" das suas sementes dispostas em globos perfeitos, que quase parecem feitos de papel.

Que pode ser utilizada com imaginação em arranjos florais não temos dúvidas. E como elemento útil na jardinagem, também não. A única coisa que ainda não compreendemos é porque é que não é utilizada com frequência em projectos de arquitectura paisagistica - no Algarve, sobretudo.

É bem posível que tenha um ou mais nomes vulgares, mas não nos fois possivel apurar qual ou quais. Dai que nos fiquemos pelo nome cientifico: Lomelosia simplex subs. dentata.

Curiosamente um género que pertence a uma das nossas familias preferidas, as Dipsacaceae, onde estão os cardos-penteadores e as saudades-rochas (Scabiosa antropurpurea), uma planta cujas flores podem ser vistas um pouco por todo o país  ainda durante mais algumas semanas. e que nos acompanharam no passeio de hoje pela serra da pescaria-praia dos salgados, a sul da Nazaré.

Mas estas saudades-rochas,  ou suspiros se preferirem, são de tal modo inspiradoras que merecem muito mais do que duas linhas. A fazer futuramente, fica prometido. Por agora deixamos apenas algumas fotos das muitas tonalidades de roxo e lilaz que aleatoriamente podem aparecer, por vezes na mesma planta. Ora vejam lá e digam se não vale a penas tê-las num canto mais digno que a beira da estrada:


sexta-feira, 19 de junho de 2015

Boas sugestões para início de Verão



Na prática o Verão chegou a todo o país há dois dias, mas astronomicamente o solestício de Verão só ocorrerá no Domingo pelas 17h38 minutos. Neesse momento o dia atinge a sua maior duração e  é a altura do ano que que a maior parte das pessoas associa aos dias longos de praia, romarias, festas de aldeia e férias. Todavai o facto é que a partir daí os dias serão cada vez mais pequenos, como a dar nota de que mesmo importante é o dia em que estamos pois amnhã já teremos menos uns minutos de luz. 

E o que fazer no Verão!?! Ora aqui está uma pergunta que a quase totalidade das pessoas responde sem necessitar de grande ajuda. Se há altura pouco propícia ao tédio é esta!

Porém há duas actividades que nos dois próximos fins-de-semana prometem um início de Verão memorável. Nós iremos participar mas quem organiza de certeza que terá todo o gosto em receber mais inscrições.

No dia 21 iremos a uma saída de campo com a Lirium à praia dos Salgados entre S. Martinho do Porto e a Nazaré. Uma área pouco conhecida e que leva o esplendor da flora mediterrânica até á beira do Atlântico num m passeio guiado ente a serra as dunas e praia que vale mesmo a pena. Há melhor maneira de assinalar o início do Verão do que com um bom mergulho depois de uma caminhada? Inscriçoes aqui!

No fim de semana seguinte iremos com a Nomadas, uma das empresas com mais experiência na organização de actividades de ar-livre e aventura de qualidade,  acompnhar os dois últimos dias da transumância de um rebanho com perto de 700 ovelhas entre a Serra da Estrela e a Serra de Montemuro. É uma recriação, mas em que a atmosfera pouco difererá da tradição extinta há poucas décadas que as comunidades pastoris cumpriam todos os anos na busca dos prados verdes de Montemuro.

Serão dois dias, Sábado e Domingo, onde além da emoção de nos fazermos assumidamente parte de um rebanho de ovelhas, poderemos contactar com o património natural e humano de Castro de Aire. E com um bonus adicional: quem tiver cães de raças de trabalho pode dar-lhe o presente que é acompanhar um rebanho a sério! O programa também promete e quem quiser saber mais informações e inscrever-se é só seguir este link.

A quem nao puder ir nem a uma nem a outra actividade, os votos de que se ocupem de outras actividade similares. Pelo país todo iniciativas não faltam! Só não vale ficar em casa de persianas corridas!


terça-feira, 16 de junho de 2015

As sementes de Portugal estão em Marvão


É sabido que o Alto Alentejo encerra incontáveis motivos de interesse, mas para quem nada dele conhece, permitimo-nos aconselhar que se começe por alguns dias na área de Marvão-Castelo de Vide, 

Uma região incompreensivelmente pouco visitada e que oferece inúmeros e bons motivos de visita, Seja pelos valores naturais da Serra de São Mamede, apesar de tudo ainda bem preservados, seja pelo riquissimo património cultural, cujas raízes remontam á idade do ferro e que passam pela antiga cidade romana AMMAIA.

Há várias maneiras de chegar a Marvão-Castelo de Vide. A que sugerimos, pela emoção que causa, é a de entrar pela fronteira. Sair de Portugal por Vilar Formoso ou Elvas, aproveitar para visitar algumas das cidades da Estremadura espanhola (Cáceres, Trujillo, Mérida, entre muitas outras, merecem ser visitadas,  ou não fossem elas também cidades que outrora integraram a antiga Lusitânia!) e depois voltar a entrar em Portugal pela fronteira de Marvão, hoje de cancelas escancaradas.

Após a aridez e monotonia dos campos da estremadura espanhola, chegar à antiga portagem, ver o castelo de Marvão lá em cima. a abundância de água do rio Sever, a Natureza luxuriante, a harmonia perfeita da arquitectura popular e não sentir uma emoção será praticamente uma impossibilidade! 

E permitirá imaginar facilmente a emoção que os judeus sefarditas espanhois sentiram quando atravessaram entre Março e Agosto de 1492 a ponte da foto acima. Uma vez expulsos por Espanha, Portugal (D. João II) acolheu cerca de 60.000 judeus que recusaram a conversão proposta pelos reis católicos. E não foi por sermos um povo hospitaleiro. Tiveram de pagar a peso de ouro a sua entrada por esta portagem. Muitos seguiram para Lisboa e daí logo para os países baixos e Londres, mas outros ficaram-se por esta terra prometida. Tanto, que Marvão, Castelo de Vide e outras localidades próximas  conservam ainda hoje sinais da sua presença.

Diga-se, de resto, que só cá estiveram de passagem. A felicidade é sempre efémera e cinco anos depois foi a vez de Portugal ceder ás tramas diplomáticas e decretar, pressionado pelos vizinhos reis de Espanha, a sua nova expulsão deste canto da península. Dir-se-ia hoje que num comportamento muito pouco ético e que nos haveria de sair bem caro, pois não se salva niguem da miséria a troco de boas somas para dai a pouco tempo inflingir igual violência.

De qualquer das formas não é dificil imaginar a esperança daqueles milhares que atravessaram, na Primavera de 1492, o rio Sever . Bosques de Sobreiros, Castanheiros, giestas e flores diversas como as que hoje vemos, foram também vistas por eles. Se não era a terra prometida, andaria lá muito perto. E uma das plantas que devem ter visto, com toda a certeza e em abudância, foi a Digitalis thapsis, uma dedaleira de porte mais baixo que a Digitalis purpurea, folhas de cor verde-amareladas, mas iguais senão superiores qualidades ornamentais.

Espanha aprovou recentemente uma lei que tenta reparar o seu erro historico conferindo a nacionalidade espanhola a todos os descendentes dos judeus expulsos naqueles anos. Ao que parece Portugal prepara-se também, para o fazer. Que seja. È de elementar justiça e inegável mérito, mas é pouco provável que sejam assim tantos os descendentes que pretendem voltar a cruzar aquela ponte.

Hoje o desafio, dificil, é outro e passa por conseguirmos manter os poucos portugueses que ainda por lá persistem e resistem! 

Visitar e ficar uns dias naquela terra é o melhor que podemos fazer para que isso possa continuar a acontecer. Ficar nos seus alojamentos, comer nos seus (excelentes!) restaurantes e comprar no seu comércio é o oxigénio que hoje Marvão e Castelo de Vide precisam com urgência. 

Da nossa parte, se pudermos contribuir para que novos e mais clientes cheguem à loja do Vale da Aramenha, na Portagem, e ao Poial da Artesã Luísa Assis, lá em cima, dentro das muralhas da vila de Marvão, ficaremos muito felizes. São duas lojas genuínas. Sem falsas pretenções mas com a sofisticação que só está ao alcance de quem faz o que gosta: promover e dar a conhecer a todos o que melhor se produz naquelas terras!


segunda-feira, 8 de junho de 2015

Jacarandás em flor


Numa altura em que a grande parte da nossa flora está ja ocupada a amadurecer as suas sementes e a preparar-se para resistir às temperaturas de Verão, ver um jacarandá em flor é sempre um fascínio.

Lisboa deve ser dos sítios mais a norte do planeta que os tem mais saudáveis e em maior abundância. Sim, não é autóctone, mas é impossível nao ficar rendido às suas nuvens lilales que aqui e ali se oferecem no meio da cidade. Seria um radicalismo demasiado não gostar deles só porque não são originários  do nosso território. Não eram, mas é como se já o fossem!

Desde que foi introduzida como árvore dos arruamentos públicos de Lisboa, no século XIX, nunca mais deixou de ser plantada. E bem, porque o Jacarandá é como a batata e o milho ... fez-se na América Central mas tinha vocação universal e hoje é imagem de marca de inúmeras cidades pelo mundo inteiro, de África à Àsia passando pela Europa.
Jacaranda mimosifila, Tapada da Ajuda

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Um bom exemplo de horticultura - A Lirium, em Alcobaça



Assinala-se hoje o dia Mundial do Ambiente. Para nós todos os dias são bons dias do Ambiente, e, por coincidência, aproveitámos uma deslocação da Fernanda Botelho a Alcobaça para visitar dois espaços que são daqueles que merecem visitas em qualquer dia do ano.

O primeiro desses espaços é o projecto da Lirium em Casal dos Ramos, a poucos quilómetros de Alcobaça. É verdade que o Ricardo Ferreira tende a considerar-nos exagerados sempre que elogiamos o seu trabalho, mas isso é por manifesta e excessiva humildade dele. O facto é que não deve haver muitos espaços em Portugal onde tão bem se tenha posto em prática o verdadeiro espírito da boa horticultura e que só é possivel criar quando há paixão e muito trabalho.

Sem dúvida que existem já outros bons espaços e jardins de flora autóctone, mas um que seja a mistura perfeita de horta e jardim é que não deve (ainda) haver muitos. Claro que tem legumes e hortaliças das mais diversas, mas também lá estão verbascos, scabiosas, dedaleiras, malvas, alcachofras e salgueirinhas só para referir algumas. Assim como inumeras plantas aromáticas e medicinais. O resultado está á vista e é a prova inequivoca de que sim, é possível ter um espaço onde se podem produzir alimentos felizes em perfeita sintonia estética com espécies mais ornamentais ou encarregues de outras funções, como as de afastar os insectos nocivos ou atrair os benéficos.

Com um pormenor adicional que não é de desvalorizar: Sem fundamentalismos! O gosto pela flora espontânea de Portugal não os cegou ao ponto de recusarem  ver que acantos, capuchinhas e onagres também lá ficariam muito bem. E é que ficam mesmo!

Mas a Lirium aromáticas não faz só Horticultura da boa, desdobra-se também noutras actividades formativas e de divulgação como a educação ambiental, a cozinha  saudável ou o património natural da região Oeste.

Foi aliás num desses passeios que ficámos a conhecer no início deste ano um dos vales cársicos, parte da bacia hidrográfica do rio Alcoa, mais interessante e que marcou a segunda paragem da tarde de hoje. 

O motivo era ir observar uma das maiores populações de bardanas silvestres que conhecemos até ao momento (Arctium lappa) e que se encontram agora na fase inicial de floração. Só que a generosidade da Natureza num vale como este não tem limites e saímos de lá com os olhos cheios de muitas outras boas populações de plantas como as malvas arbóreas, a borragem, a camomila, a Anchuza azurea, os verbascos ou as prímulas.

Um sítio de tal forma incrível que quem o visita só se espanta  com o facto de não beneficiar de nenhum estatuto de protecção local mais assumido e declarado! É verdade que a protecção pelo esquecimento proporciona aqui e ali alguns resultados felizes, mas quando a eucaliptização se aproxima como a que se observa já a poucas centenas de metros, a beber dos aquíferos que saciavam este vale, o pior pode acontecer a qualquer momento. Se é que  não aconteceu já...





domingo, 17 de maio de 2015

X Jornadas de Etnobotânica - Fornos de Algodres


Quem nos segue há algum tempo já sabe que não gostamos de espartilhar o que nos rodeia. As coisas, nós, a terra, os elementos, flora e outros seres incluídos, estão todas ligadas e separá-las pode trazer benefícios, mas apenas para efeitos de estudo (e só de alguns). Persistir mais do que isso só nos prejudica e são poucas as vantagens que se podem tirar da permanente hiper-especialização que com frequência nos dizem ser o caminho.

Vem isto a propósito das X jornadas Etnobotânicas ontem realizadas em Fornos de Algodres dedicada este ano às ligações entre as Plantas e a Religião. O mesmo é dizer das ancestrais ligações que fomos desenvolvendo com as plantas e as suas cargas simbolicas, religiosas, espirituais e mágicas. Neste particular está tudo ligado e quando um grupo de humanos confere uma identidade e um valor  a uma planta é a sua própria identidade e diferenciação  que estão em construção nesse momento.

Daí que as mesmas plantas tenham, entre diferentes comunidades,  muitas vezes separadas apenas por pequenas distâncias, nomes tão diversos. Isto, longe de ser uma problema, é um dos nossos principais activos enquanto povo. Essencial para mantermos uma identidade própria, É factor de auto-estima e valorização da nossa forma de viver enquanto comunidade. E de como nos apropriamos da nossa terra numa relação de respeito mútuo, única e irrepetível.

Nesse aspecto as intervenções dos oradores Prof. Vasco Teixeira e António Catana, dedicadas aos ritos religiosos nas terras das Idanhas, por altura da Páscoa, demonstraram bem até que ponto os muito pobres da Beira baixa não o eram com toda a certeza de espírito.

Como é natural há quem possas achar estes aspectos perfeitamente acessórios e dispensáveis que se podem e devem descartar-se facilmente para não atrapalhar a uniformização a gosto dos senhores. E entre nós não são poucos os casos em que isso aconteceu. pois quando se tem muito património é-se com frequência, muitas vezes ingenuamente, perdulário. Felizmente um erro que em Fornos de Algodres conta, por agora ,com gente para o combater. Estas jornadas e o fim de semana dedicado à urtiga são um bom exemplo disso.

Numa terra com o imenso património cultural e natural como que Fornos de Algodres tem no sopé da Serra da Estrela, ousar enveredar pela erva mais mal afamada e dar-lhe uma confraria é não abdicar de um milimetro de terra!  Ainda bem. Uma terra custa muito e mal estamos quando começamos a abdicar dela de forma relaxada.

Outrora alimento de último recurso dos mais pobres, às urtigas aqui abundantes (Urtica dioica) a recente investigação científica  comprova-lhe inúmeras qualidades enquanto alimento nutritivo e de propriedades anti-oxidantes. Pode ser utilizado na confecção de inumeros pratos já concebidos e em muitos outros que estão para ser inventados. Defendê-la e promovê-la ilustra apenas o enorme potencial que todos os outros  recursos endógenos da região podem ter. Se forem devidamente valorizados, claro!


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Dia da Espiga



Depois de alguns dias fora de portas regressamos com olhos renovados ao nosso ponto de partida. E hoje é o dia perfeito para o fazer pois assinala-se o cada vez mais "mítico" dia da Espiga!

Quarenta dias depois da Páscoa, o dia da Espiga celebrava-se outrora de forma exuberante por todo o país! E ainda hoje se assinala até porque, numa série de localidades o feriado municipal é móvel e feito para coincidir com este dia. também conhecido como quinta-feira da Ascenção. Daí que nas localidades em questão* seja mais provável ainda se manter esta boa-tradição!

Como referiamos aqui, no ano passado, é um dia de tal forma santo que a regra era de que não se trabalhasse e que além de participar nas cerimónias religiosas se fosse para o campo e colhesse um ramo de flores silvestres, ramos de oliveira, alecrim e espigas de trigo. 

E não resistimos a transcrever o que a Alexandra Melo, gerente da loja A vida Portuguesa do mercado da Ribeira em Lisboa escreveu hoje na página do FaceBook ( a quem aliás agradecemos, pois se não fosse essa publicação ter-nos-iamos esquecido de assinalar a data!):

""Por estes dias, o calor acordava as cerejas que se enchiam redondas e bem encarnadas e se ofereciam às nossas bocas. O ar carregava-se de cheiros de terra e plantas e ao anoitecer, lembro-me de ver pirilampos. O dia da Espiga trouxe-me estas recordações de outros Maios, passados no Douro Sul. Foram dias mágicos, eternos e felizes.
O dia da espiga chama-se também o "dia da hora" e é considerado "o dia mais santo do ano", um dia em que não se devia trabalhar. Era chamado o dia da hora porque havia uma hora, o meio-dia, em que tudo parava, "as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e as folhas se cruzam". Era nessa hora que se colhiam as plantas para fazer o ramo da espiga e também se colhiam as ervas medicinais. Em dias de trovoadas queimava-se um pouco da espiga no fogo da lareira para afastar os raios."
Alexandra Melo
Gerente da loja do Mercado da Ribeira"


Mais palavras para quê!?! Está la tudo o que há para dizer num dia como o de hoje. São as memórias reais de quem teve o privilégio de vivenciar a forma muito particular e única o que a população de uma dada parte do nosso país tinha para fazer uma coisa essencial à condição humana e que deixámos de fazer sem se perceber bem porquê: Celebrar!

Se no ano passado salientámos as papoilas, este ano pomos os olhos nos malmequeres amarelos. Em bom rigor até nem é uma espécie nativa de Portugal (terá sido também trazida pelos Romanos?!), mas a forma como está disseminada pelo nosso território e o facto de ja fazer parte do nosso imaginário levam-nos a considerá-la já nossa! São os pampilhos-das-searas, ou, se preferirem, o Chrysanthemum segetum, e além de indispensáveis em qualquer ramo têm lugar certo em qualquer prado florido!

 *Alcanena, Alenquer, Almeirim, Alter do Chão, Alvito, Anadia, Ansião, Arraiolos, Arruda dos Vinhos, Azambuja, Beja,  Benavente, Cartaxo, Castro Verde, Chamusca, Estremoz, Golegã, Loulé, Mafra, Marinha Grande, Mealhada, Melgaço, Monchique, Mortágua, Oliveira do Bairro, Quarteira, Salvaterra de Magos, Santa Comba Dão, Sobral de Monte Agraço, Torres Novas, Vidigueira, Vila Franca de Xira.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Jardim Botânico de Bruxelas


Como alguém nos dizia há algum tempo, as razões que estiveram na origem dos Jardins Botânicos Europeus fazem deles hoje potenciais feiras de "aberrações" do reino vegetal, tal qual os jardins zoológicos no que toca ao reino animal. Com efeito, a sua grande motivação, incluíndo-se aqui os nossos jardins botânicos de Lisboa, era a de reunir num espaço circunscrito uma colecção significativa de plantas e árvores de outras latitudes com um especial enfoque naquelas que tinham origem nos territórios ultramarinos dos respectivos países.

Posteriormente e á medida que se desenrolou o século XX, o seu papel científico no conhecimento e estudo da flora, a par da sua missão formativa, aprofundaram-se e o seu raio de acção alargou-se a toda a flora ultrapassando em muito a exclusivamente exótica. Razão pela qual hoje, por exemplo, os principais jardins botânicos europeus mantêm nas suas colecções espaços inteiramente dedicados á flora nativa europeia. 

Mas um jardim botânico não é só isso. É também lugar para com  persistência criar espaços de harmonia e exigência estética. O Jardim Botânico de Bruxelas (aliás Meise, a alguns quilómetros a Norte) é um desses lugares, Apesar de alguns detractores não o apreciarem particularmente, sobretudo pela sua ambição, pouco conseguida em algumas coleções ( 18.000 espécies numa área de 92 hectares), o facto é que não é uma perda de tempo visitá-lo. Pelo contrario.

A nossa visita tinha como principal objectivo o seu "jardin des plantes" dedicado á flora nativa da Europa. Muitas das nossas espécies autóctones estão lá representadas e lado-a-lado com parentes próximos de outros países europeus. Mas ha outros espaços que valem a pena visitar, como as estufas ou a "orangerie".

Como bónus e noutra zona do parque, tivemos a sorte de poder observar ainda a colecção de Paeonias no seu máximo de floração. Não somos conhecedores da real importância ou representatividade desta colecção, que julgamos conter uma parte significativa de cultivares pacientemente apurados por gerações de bons jardineiros. Mas é impossível ficar indiferente á dimensão formas e cores alcançadas. A nossa Paeonia broteroi, Rosa-albardeira, que agora se encontra em floração nos maciços calcáreos de Portugal,  e que é sem duvida uma das maires e mais bonitas flores da nossa flora espontânea é, se comparada com as que abaixo mostramos, verdadeiramente humilde!



domingo, 10 de maio de 2015

Um parque alemão



Depois de no fim-de-semana passado termos estado na conferência de Primavera dedicada ao Jardim Portugês, aproveitámos para tirar uns dias de descanso. Por norma este devem ser uma opotunidade para nos distrairmos dos temas que nos ocupam no dia a dia, mas se fosse essa a intenção entao teriamos escolhido um dos piores locais do planeta para o efeito.

Bremen, a 2,5horas do Porto via Ryanair, é simplesmente um inferno verde!

É um facto que está localizado numa latitude onde a abundância de água e a riqueza do solo proporcionam uma Primavera luxuriante. Todavia o que por lá se vê, não se faz só com bom solo e muita chuva. Resulta sim de opções muito claras do povo daquela cidade acerca da forma como pretende viver nesta terra.

Não sabemos se existe um Jardim Alemão. É provável, mas não foi, pelo menos por agora, o que nos levou lá. O que nós mais apreciámos, e nos deixou a indagar como é que é possivel que em 30 anos de integração europeia não tenhamos conseguido importar mais deste país do que carros de alta cilindrada, foram duas coisas: A dimensão e qualidade dos parques urbanos e, 2) o óbvio gosto que os habitantes da cidade nutrem pela Natureza.

Relativamente aos parques as duas  imagens acima são bem exemplificativas: O Rhododendrom Parc, a par do jardim botânico nele inserido, bem como a cintura de jardins que envolve o núcleo antigo da cidade, são do melhor que que se pode querer ver, pelo menos neste hemisfério.

Já no que respeita ao evidente gosto pela Natureza que aqui se cultiva, três aspectos entram pelos olhos dentro e é impossível não reparar neles. Por um lado, poucas sao as casas, mesmo as mais humildes, que não têm um jardim/horta digno do nome. Por outro lado consegue-se andar na cidade sem ver um único jardineiro obececado a aplicar mondas quimicas, a irradiar "ervas daninhas" e flores silvestres dos relvados ou a  derramar furiosamente as árvores, com a desculpa que tal trabalho é para a protecção de pessoas e bens. Árvores frondosas e passeios cheios de ervas "daninhas" abundam por aqui e, pasme-se, parecem não incomodar ninguém!

Algumas fotos do parque dos rodendros. È dificil nao ficar com inveja...

Algumas fotos de jardins particulares, onde quer a borragem quer as giestas (lado direito) fazem parte das espéices elegíveis;

Algumas fotos de como, pelo menos nesta cidade, é possível ver árvores com uma estrutura de ramos intacta ( ou pelo menos bem podadas)  e bermas e passeios com flora silvestre sem que ninguém entre em pânico!